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Projeto desconfigura ruas residenciais

A proposta de zoneamento apresentada pela gestão Fernando Haddad (PT) cria quatro novos corredores de comércio e serviços apenas na Subprefeitura de Pinheiros, zona oeste, onde ficam os Jardins. Se aprovados, eles devem alterar a característica de vias hoje quase que apenas residenciais, como é o caso da Rua Sampaio Vidal, nos Jardins, das Ruas Japiaçoia e Diógenes Ribeiro de Lima, no Alto de Pinheiros, e da Abegoária, no Jardim das Bandeiras.

Moradora da Rua Sampaio Vidal há 23 anos, a arquiteta Lia Aquino Ficarelli, de 60, afirma que o bairro presta um serviço ambiental à cidade, condição que deveria ser levada em conta pela Prefeitura. "As pessoas falam que não queremos perder a nossa ilha de tranquilidade, mas não acho que seja só essa a questão. Também é preciso lembrar do ambiente. A temperatura por aqui é mais baixa, por causa da arborização. Somos guardiões desse patrimônio e pagamos um IPTU caro por isso. Se o bairro virar um corredor comercial, como querem, a primeira parte a ser destruída é essa. Em um ano, já não haverá mais a vegetação original", diz.

As características de ocupação do solo estão gravadas nas escrituras dos imóveis. Quando loteou o Jardim América, a Companhia City determinou quais deveriam ser os recuos laterais e frontais, a fim de preservar o estilo de urbanização proposto para a região. Mas a minuta de lei apresentada pela Prefeitura desconsidera essa regra, para desgosto dos moradores. Há 23 anos, o economista Alexandre Salomon Tudisco, de 43 anos, e a mulher dele, Sandra Berenstein Tudisco, de 41, trocaram Perdizes pelos Jardins e agora temem a descaracterização da região. "Precisamos preservar o espírito interiorano do nosso bairro. Uma revisão (do zoneamento) nesse sentido (de ampliar o comércio) significaria adensar e trazer mais trânsito", diz ele. Moradores de bairros próximos dividem as mesmas preocupações. Presidente da Associação dos Amigos do Alto dos Pinheiros (Saap), Ignez Baretto ressalta que a população não quer que a Rua Japiaçoia, que é residencial, seja transformada em corredor, e com uma gama muito grande de atividades.

"Isso não faz sentido, ainda mais sem debate nem detalhamento dos tipos de uso. Hoje, todas as atividades permitidas nos corredores de serviço dos bairros residenciais estão descritas. É possível saber o que pode e o que não pode em cada via. A nova lei não tem isso. Dessa forma, não está claro o que será liberado", afirma.

Por enquanto, os usos que deverão ser permitidos compõem um quadro anexo à proposta de lei lançada pela Prefeitura no ano passado. Genérico, ele não define claramente se "comércio de alimentação", por exemplo, quer dizer restaurante ou ainda se "serviços de saúde" são clínicas médicas, laboratórios ou hospitais.

Ambos os tipos de atividades - alimentação e de saúde - também estão previamente liberadas nas áreas gravadas na minuta de lei como Zonas Predominantemente Residenciais. Novidade no zoneamento proposto pela gestão petista, as novas zonas substituem bairros formados apenas por casas, como é o caso de parte dos Jardins Europa e Paulistano. O mapa indica, por exemplo, que o território que envolve a Rua Hungria corre o risco de mudar de perfil. Apesar das mudanças, há quem elogie a proposta. Para a escritora Deborah Goldemberg, de 40 anos, seria bom ter alguns serviços mais perto de casa. "Hoje, para comprar pão preciso pegar o carro e ir até o supermercado que fica dentro do shopping", diz. Debate. Responsável por elaborar a minuta, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano afirmou, em nota, que o processo de revisão da lei de zoneamento ainda está em curso e que, portanto, o projeto não está fechado. A pasta confirmou que estuda possibilidades de diversificação dos tipos de zonas corredores, sendo consideradas zonas com pouca diversificação e outras com maior diversificação de uso. Conselheiro da AME Jardins, o vereador Andrea Matarazzo (PSDB) assumiu o compromisso de defender as ZERs durante o processo de votação na Câmara Municipal. O tucano diz que Haddad está transformando uma questão urbanística em ideológica. "Os Jardins, assim como as outras zonas estritamente residenciais, são o pulmão verde da cidade. Mas ele acha que são bairros de luxo e de ricos e, por isso, devem ser mexidos. Vou lutar contra", adianta. As associações que representam as ZERs também prometem não desistir e ir à Justiça, se preciso, contra as novas regras. 

 

Fonte: Estadão